O Senhor Otávio amava seu trabalho. Ele era empacotador de livros. Tinha orgulho de ajudar as histórias a chegarem ao seu destino – os olhos e os pensamentos de crianças, adultos, velhos que mergulhavam naquelas páginas cheias de ideias e sonhos e se lembravam de que o mundo sempre podia ser maior.

Todo dia, na gráfica, ele embrulhava grandes pilhas de livros para que fossem colocadas nos caminhões e distribuídas pelas livrarias da cidade.

Mas havia um problema: a tinta recém-impressa nas páginas dava coceira no nariz do Senhor Otávio. Ele passava horas sentindo aquele cheiro forte e, no fim do dia, sempre estava fungando e coçando o nariz.

Um dia o Senhor Otávio acordou sem nariz. 

Tinha um vazio no lugar. Tinha também um susto. Mas não tinha mais cheiro. Não tinha mais coceira. Não tinha mais nada. Que alívio!

Naquele dia o Senhor Otávio trabalhou mais leve. Empacotou centenas de pilhas de livros, mas a tinta não incomodou e ele voltou para casa sem sentir aquela irritação.

No início foi estranho não ter nariz, mas ele logo se acostumou. Era muito bom poder trabalhar sem aquele cheiro de tinta forte.

O Senhor Otávio trabalhava todo dia para se sustentar e não podia parar. Ele nem se lembrava mais de que um dia tivera um nariz.

Então o telefone tocou no meio da noite. Era o nariz.

– Senhor Otávio, o senhor não imagina onde estou.

– Não imagino mesmo!

– Estou na Itália. Peguei um avião assim que me soltei de seu rosto, e pousei na cidade de Módena. Logo dei de cara – ou melhor, de nariz – com um cacho gigante de uvas brancas. O senhor não imagina que cheiro bom!

– Ah, senhor Otávio, depois do cheiro das uvas brancas, eu conheci outros aromas. Sabe o que fazem com as uvas brancas? Amassam e colocam em barris de madeira. Essa madeira tem o cheiro mais bonito que já experimentei. É como se ele carregasse a história da Itália, pois alguns barris tem mais de 500 anos de idade. Imagina o cheiro dessa história? E aquele suco de uva fica guardado nos barris durante muitos anos, fermentando, e emanando outro aroma que é uma coisa extraordinária, densa, uma coisa que você sente que pode pegar com as mãos. Parece que o ar é uma fruta. O senhor não imagina.

O Senhor Otávio ficou impressionado com o relato, mas lembrou-se de que, desde a fuga de seu nariz, não precisou mais sentir o cheiro forte e incômodo da tinta dos livros novos.

– Certo, certo, meu nariz! – disse ele. – Mas eu também estou muito bem. Desde que você me abandonou, nunca mais tive coceira em você. Foi um grande alivio.

– Senhor Otávio, quer saber o que eu acho? Eu acho que o senhor só conhece o cheiro dos livros. Não sabe quantos aromas maravilhosos existem por ai. E não sabe que eu posso ajudá-lo a conhecer muitos deles. O senhor deveria vir para cá, descobrir os aromas. O mundo é muito mais cheiroso do que os livros! Venha!

Em pé na sala da gráfica onde trabalhava, cinzenta, cheia de livros novos, caixas empilhadas e grandes paredes de tijolos com janelas altas e pequenas, o Senhor Otávio pensou. Lembrou-se do cheiro penetrante e cansativo que exalava dos livros. E aceitou o convite: foi para a Itália juntar-se a seu nariz.

Os dois se encontraram em um vilarejo perto de Módena. O nariz contou que aquela história das uvas brancas amassadas e guardadas em barris de madeira era a história do aceto balsâmico, um vinagre muito especial, inventado na Idade Média, e usado até hoje para dar um sabor único, agridoce, a receitas culinárias ao redor do mundo.

O nariz e o Senhor Otávio, já grudados um no outro como eram antes, visitaram fábricas de aceto. Sentiram os aromas da produção. Perceberam as diferenças de sensação entre os barris de carvalho, castanheira, cerejeira, amoreira. Passearam pelas colinas de Módena onde são cultivadas as uvas brancas. Visitaram os restaurantes e provaram as iguarias enfeitiçadas pelo aceto. Queijos. Mortadelas. Carnes. Ovos. Peixes. Morangos. Peras. Sorvetes.

Ouviram o dono de uma fábrica contar que uma parte daquele caldo das uvas nos barris se evapora ao longo dos anos, e que chamam aquela nuvem de “parte dos anjos”. Concordaram. Os anjos mereciam aquilo.

Passearam pelas vilas da região por mais duas semanas, até que, num fim de tarde, sentados na sacada de um pequeno hotel com vista para uma colina coberta de uvas, o nariz e o Senhor Otávio se entreolharam, silenciosos. Ficaram assim por alguns minutos. Sabiam que algum dia teriam de encerrar a viagem. A gráfica não podia parar. Era o trabalho deles – e o alimento dos leitores.

Concluíram: precisavam voltar.

O voo de volta foi quieto, todo acompanhado por pensamentos de aromas. Lembranças de fragrâncias. Ideias de odores. O Senhor Otávio e seu nariz estavam cabisbaixos, nostálgicos, com medo de nunca mais sentir de verdade as histórias que Ihes haviam chegado pelo ar, em forma de cheiro.

Chegaram à gráfica e retomaram, desanimados, o trabalho de empacotar livros. O cheiro ainda era aquele: a tinta forte, que penetrava e ardia. 

Mas uma pilha de livros recém-impressos lhes chamou a atenção. Era uma obra sobre as milhares de frutas do Brasil. Ainda emocionados com a experiência dos aromas que haviam conhecido na Itália, pararam de empacotar e observaram aqueles livros por alguns minutos. Pensaram.

Foi o nariz que teve a ideia. Ou o Senhor Otávio, tanto faz – eles já estavam juntos de novo. A ideia foi colocar cheiro nos livros.

Começaram com a edição sobre frutas brasileiras. Passaram a acrescentar aromas em todos os livros que lhes chegavam para empacotar. Apareceu até um livro com vários textos sobre vinagre – este foi fácil.

E não foram só livros sobre coisas que se comem. O Senhor Otávio e seu nariz puseram aromas em histórias com gente e coisas que acontecem. Cheiros doces em contos de fadas com finais felizes. Agridoces em romances sobre encontros e desencontros. Fedidos – só um pouco fedidos em livros de monstros, vampiros e mortos-vivos. Odores misturados, estranhos, inventados, intrigantes, para enfeitar histórias estranhas, cheias de reviravoltas, que eram difíceis de entender, mas fáceis de gostar.

E daquela gráfica, dali em diante, só saíram livros empacotados com aromas. O Senhor Otávio e seu nariz, em vez de sentir coceira e irritação, se deliciavam com histórias que emanavam das caixas e flutuavam pelo ar.

E os livros passaram a levar para seus leitores um pedaço ainda maior do mundo.

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A meus filhos Gabriel e Antonio, que fizeram essa história nascer ao ouvi-la.

Sobre o autor

Alexandre Moschella é jornalista, escritor e músico. Paulistano, formado em Comunicação Social pela PUC e em Música pela FASM-SP, trabalhou como repórter e editor em alguns dos principais veículos de imprensa brasileiros. Comunicador e criador multidisciplinar, articulou projetos de comunicação, editoriais e culturais para empresas, veículos de imprensa e organizações culturais, sociais e educacionais.
Atualmente, é líder de Estratégia de Conteúdo e Relações Públicas em uma multinacional de consultoria. Com o nascimento de seus filhos Gabriel e Antonio, passou a inventar histórias infantis para a hora de dormir.

Conto extraído do livro Açúcar, Álcool e Vinagre, de Fernando Goldenstein Carvalhaes.

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